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“Os próximos 100 anos”, de George Friedman”por Francisco Cesar Pinheiro RodriguesDepois de, digamos, “certa
idade” passei a ver o mundo de uma forma bem diferente. Diria “exageradamente
redutora”. Mesmo gozando de boa saúde, pelo menos nos encanamentos
arteriais, penso que a proximidade do fim — “vira essa boca prá
lá!” — desperta uma automática e involuntária tendência de ver
as coisas de forma mais sintética e impaciente. Queremos conhecer —
logo! — não só a conclusão mas também o que, verdadeiramente,
está por detrás e em torno dela. Em tudo: conversas, relações sentimentais,
comerciais, exposições teóricas, vendo um filme, lendo um livro,
etc. Daí a impaciência dos velhos. O “idoso” — “eu não!”
— sente que não mais tem o direito de perder tempo. O abismo não
está longe e o espia com olhar condoído ou velhaco, esfregando as
mãos. Como se a natureza, sabendo que o condenado não vai ficar muito
tempo usando o oxigênio dos mais jovens, sentisse pena dele, acelerando
a manipulação dos seus pensamentos. Preocupamo-nos muito mais com
os filhos, netos e com aquelas pessoas de nosso relacionamento que nos
parecem economicamente mais indefesas. De certa forma, considerando
a origem biológica comum, monocelular, de todos os seres vivos, tais
pessoas , e até os animais, são também nossos “parentes distantes”.
“O que acontecerá com eles, depois que eu me for?” Essa preocupação também
se estende aos rumos da humanidade, ao que nos reserva um futuro não
excessivamente distante. “Os próximos 100 anos” é um prazo interessante.
Dá para tolerar. Já “milênios” é algo distante demais, sendo
o impensável o mais provável. Daí a motivação para adquirir o livro
de George Friedman, que acabei comprando em inglês porque não sabia
que já havia tradução para o português. Mas acabei comprando, dias
depois, a tradução porque, tendo prometido ao dinâmico site de relações
internacionais — www.mundoRI.com — que faria uma avaliação da obra, pensei
que lendo a tradução minha tarefa seria mais rápida e prazerosa.
Engano, não foi; e não por motivo de língua. A substância do livro
é que é de difícil digestão, embora se trate de um prato bem colorido,
com intenções intelectualmente requintadas. O conteúdo me provocou
dor de cabeça, achaque que provavelmente acometerá todo leitor mais
crítico, que não “engole” facilmente as coisas, mesmo revestidas
de autoridade, como é o caso do autor, altamente conceituado nos EUA
como conhecedor do futuro próximo. Cem anos, porém, foi um tiro superior
ao alcance seu canhão mental, por mais bem informado que seja o autor,
como de fato é. A credibilidade das suas profecias é praticamente
nenhuma. Livros proféticos nunca
me provocaram respeito. Nostradamos sempre me pareceu um esperto aproveitador
da credulidade humana. Não há dúvida de que era inteligente e culto.
Tinha o coração fraco e precisava cuidar da família. Daí a necessidade
de uma fonte de renda: suas abundantes profecias. Todo ano — à maneira
do cantor Roberto Carlos, com seu álbum de canções —, ele lançava
um almanaque vazado em linguajar algo hermético, possibilitando interpretações
ao gosto do freguês. Sempre dá para “encaixar” qualquer desgraça
do momento, ou do passado, em uma das inúmeras “Profecia de Nostradamus”.
Quem aprecia horóscopos, astrologia, pedra filosofal, alquimia, data
do fim do mundo, desdobramento, levitação e coisas do genro só pode
prestigiar o mais famoso profeta, que tinha, porém, algumas qualidades.
Por exemplo, empenhou-se, diversas vezes, com risco pessoal, nas lutas
contra a Peste Negra, que ceifava vidas aos milhares, incluindo sua
primeira mulher e dois filhos. Ele também se opunha firmemente ao uso
se sangrias (isso por volta de meados do Século XVI). Os médicos da
época eram apenas ligeiramente menos ignorantes que a grande massa
de analfabetos. Sabiam Latim. Como nada conheciam de Medicina, verdadeiramente
— não por culpa deles —, mas precisavam “mostrar serviço”,
sangravam o paciente, enfraquecendo-o ainda mais. A chance de sobreviver
era maior quando o paciente fugia dos médicos. As profecias de George
Friedman, no livro em referência, não padecem das obscuridades de
seu famoso maior predecessor. Pelo contrário, até exageram nos detalhes.
Por exemplo, leiam este tópico, entre dezenas que sublinhei: “O que
procurei mostrar nos capítulos anteriores é como os Estados Unidos,
a Polônia, a Turquia e o Japão se engalfinharão no próximo século”
(quis dizer cem anos), “e por que turcos e japoneses se sentirão
ameaçados a ponto de não terem outra escolha a não ser travar uma
guerra preventiva” (pág. 234) — contra os EUA, esclareça-se. E
no parágrafo seguinte ele, após pedir licença ao leitor pelo exercício
imaginativo, passa a usar seus talentos de romancista: “A destruição
das três Battle Stars” (estações espaciais com finalidade estratégica)
“será planejada para o dia 24 de novembro, às 17 horas. A essa hora
do Dia de Ação de Graças, a maioria das pessoas nos Estados Unidos
estará vendo futebol ou descansando depois de uma lauta refeição.
Alguns estarão voltando de carro para casa. Ninguém em Washington
antecipará um problema. É nesse momento que o Japão vai querer atacar”.
E assim por diante. Finalmente, “Às 19 h, a força espacial e hipersônica
dos Estados Unidos será devastadora. Os Estados Unidos perderão o
comando do espaço e só dispõem de umas poucas centenas de aviões.
Seus aliados na Europa tiveram suas forças aniquiladas. Navios de guerra
norte-americanos ao redor do mundo terão sido atacados e afundados.
A Índia terá perdido seus ativos também. A coalizão americana estará
militarmente arrasada” (pág.238). Depois ele descreve o contra-ataque. Qual a impressão disso
tudo? Pura “viagem”, imaginação exacerbada.. Alguém poderá
argumentar: “Prove que as profecias dele estão erradas!” Impossível,
porque eu teria que usar a mesma técnica abusiva do “chute” que
estou censurando. Crítica e contra-crítica assemelhar-se-iam a uma
partida de futebol entre internos de manicômio, uma guerra de “chutes”
em qualquer direção. Seria preciso um livro
inteiro, também de qualidade intelectualmente duvidosa, para sugerir
a gratuidade das previsões do livro. Só mesmo sua leitura convencerá
o leitor quanto ao grau de probabilidade de acerto das “profecias”. O livro em exame não
tem nenhuma qualidade? Não digo isso. É útil como manual simplificado
de Geografia e História, particularmente das guerras e geopolítica.
Contém elucidativos desenhos à guisa de mapas. O leitor médio fica
finalmente sabendo, exatamente, onde fica “o tal” Bósforo, do qual
eu tinha antes uma vaga idéia, sabendo que era ali por perto da Turquia. Uma outra qualidade do
livro é a de revelar os talentos de romancista do autor, um especialista
de política internacional. Se lida, a obra, como um mero romance sobre
o futuro, nada a opor ao trabalho, porque no reino da fantasia tudo
é válido. E não se põe em dúvida seus conhecimentos de estratégia.
O que assusta é a sua imensa audácia de prever coisas que tanto podem,
quanto não podem, acontecer, embora recheando suas afirmações com
informações destinadas a impressionar aqueles que pouco frequentam
textos sobre política internacional. Há também imensas
omissões em sua obra. Ele parece ignorar que existe uma União Européia.
Quando fala em futuras reações da Alemanha, Inglaterra, Turquia, Polônia,
Rússia e demais integrantes da EU, não leva em conta que tais países
já não decidem tudo sozinhas. Outra imensa omissão
está em imaginar que nos próximos 100 anos o planeta continuará
do jeito que sempre foi mas já está, há décadas, deixando de ser:
preocupado apenas com o próprio interesse, principalmente estratégico.
Seu livro, o tempo todo, só tece considerações sobre nações mais
fortes tentando dominar as mais fracas e estas tentado ficar mais fortes
para dominar as demais. É uma cantilena só. Praticamente ignora a
Corte Internacional de Justiça, o Tribunal Penal Internacional, e a
própria Organização das Nações Unidas. Sobre o esforço das almas
mais bem intencionadas — e são milhões — visando um mundo mais
justo, nem uma palavra. A consciência universal pede menos guerras
e pré-guerras. Como já disse Bertrand Russel, a guerra não determina
quem está certo, apenas quem sobrou. Se o mundo, nos próximos
100 anos, será como “prevê” o livro em exame — e aposto
que ele está totalmente errado —, a humanidade terá dado a si mesma
um incontestável atestado de estupidez. Agravada pelo fato inegável
da proliferação nuclear. E essa proliferação o autor admite, acertadamente,
que será inevitável. Haverá outros “Irãs”, e “Coréias do
Norte”, digo eu, todos reivindicando o direito de se defender com
as mesmas armas dos “maiorais” de hoje, que se outorgaram, mas só
a eles, o direito de manter seus arsenais nucleares. O autor parece presumir
que nos próximos cem anos os países mais importantes serão conduzidos
apenas por líderes de segunda ou terceira categoria, só pensando,
e de modo estreito, no “interesse nacional”. Esquece que nem sempre
os povos erram na escolha de seus líderes. Se o mundo do próximo século
for conduzido por políticos tipo Dick Cheney, Donald Rumsfeld, Adolf
Hitler, Benito Mussolini, Benjamin Netanyahu, Joseph Stalin e assemelhados,
ainda seria possível vislumbrar imutáveis dias negros no horizonte.
Mas isso não é esperável. Barack Obama é um exemplo de que, mesmo
países extremamente fortes dispõem de uma massa de eleitores suficientemente
inteligentes, capazes de discernir o que é melhor para seu futuro,
globalmente. E com a mundialização, o que melhora um país acaba melhorando
os demais. Países “piorados”, “abagunçados”, produzem líderes
ressentidos, belicosos, provocadores, “patrioteiros”. O autor não se interessa
muito pela questão palestina, esta chaga que, a meu ver, está na origem
do ataque de 11 de setembro às Torres Gêmeas e ao Pentágo. Bin Laden
é um fanático, envenenado de ódio contra o estilo de vida do Ocidente,
mas na motivação para o referido ataque a situação lamentável dos
palestinos teve especial relevância. Por elementar e evidente
necessidade de sobrevivência a humanidade terá que decidir entre continuar
existindo pacificamente, obedecendo regras internacionais e internas
cada vez mais impregnadas de moral, ou mergulhada continuamente em sobressaltos,
guerras, ciumeiras de poder, abuso dos mais fracos e o restante do entulho
moral que explica porque, ainda hoje, vemos crianças esquálidas procurando
restos de comida nos “lixões” enquanto países gastam bilhões
e trilhões de dólares em armamentos e despesas com deslocamento de
tropas. Esse assunto parece não interessar muito ao autor. Ele se desculpará
da acusação dizendo que não lhe cabe “consertar” o mundo, mas
prever o que ocorrerá. Só que prevê obviamente errado, presumindo
que a humanidade não fará qualquer tentativa de reorganização no
modo como a solucionará seus conflitos mais graves. Não se trata de
imaginar que o mundo do futuro será “santinho”. Trata-se de pensar
na própria sobrevivência da espécie humana. Mesmo os mais poderosos
governantes têm filhos, netos ou até bisnetos. Um outro ponto absurdo,
nas conclusões do autor, é a sua constante preocupação com
o declínio do crescimento populacional, quando sua reação deveria
ser o contrário. O mundo já está super-povoado. E o desemprego
cresce, em razão da informática, do maquinário e da robotização.
Será uma bênção até mesmo um leve encolhimento da população mundial,
porque à medida que cresce o desejo de conforto, em todos os países,
maior a poluição ambiental, a escassez de água, etc. Se nos países
europeus mais ricos as mulheres preferem ter apenas um ou dois filhos,
isso mudará quando os respectivos governos as incentivarem a aumentar
a “produção de bebês”. O futuro não é estático. Chega dia
por dia. Não se pode presumir, como pretende o autor, que daqui a vinte
anos as pessoas sintam e raciocinem como ontem ou hoje. O leitor, por
experiência própria, sabe que mesmo na semana que vem talvez se comporte
de maneira diferente, conforme o que suceda hoje ou amanhã. Essa variação,
essa inevitável criatividade humana é algo que nos impede acreditar
nas profecias do autor do livro, por demais “engessado” pelo que
ele constatou no passado. Tentei saber a idade exata do autor. Não consegui, mas pelas fotos dele percebe-se que está na faixa alta dos sessenta. Não estará entre os vivos no que se refere à maioria das suas previsões. Essa é uma vantagem para quem escreve profecias.
Estou, aqui, por acaso, recomendando ao leitor que o livro não seja comprado? Pelo contrário, para tranqüilizar minha consciência — em tese, vá lá, eu poderia estar errado — recomendo, que ele seja comprado e lido de cabo a rabo, resultado que acho que não acontecerá com a quase totalidade dos leitores. A dor de cabeça, tentando digerir previsões com todos os indícios de gratuidade, favorecerá os lucros dos fabricantes de remédios contra a hemicrania. Se, porém, como já disse, o livro for lido como um romance de ficção político-científica, sem o menor policiamento crítico, aí não digo nada, porque há gosto para tudo.
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